quinta-feira, março 01, 2007

AS RELIGIÕES DE MISTÉRIO E A EMERGÊNCIA DO CRISTIANISMO EM ROMA


A expressão Religiões de Mistério relaciona-se àquelas formas religiosas que incorporam doutrinas esotéricas, ritos e cerimônias secretas de iniciação, e que existiam no mundo helênico, mais ou menos na época das conquistas militares de Alexandre, o Grande, e daí por diante até os primórdios do cristianismo.

As religiões misteriosas eram, essencialmente, religiões que falavam em redenção, oferecendo aos iniciados a libertação dos problemas do mal, das condições terrenas e suas limitações. Essa libertação deveria ser obtida mediante a aderência fiel aos ritos prescritos. Após longas e árduas purificações os iniciados seriam guindados à vida própria dos deuses.

Quase todas estas religiões misteriosas giravam em torno da idéia de salvadores que morriam e voltavam a vida, elas apelavam para um profundo e crescente senso de necessidade de alguma experiência religiosa pessoal, bem como da salvação futura da alma, como algo essencial do ser humano.

I - As Origens das Religiões de Mistério

Desde o estabelecimento do Império Romano houve um intenso intercãmbio entre Oriente e Ocidente. O predominante culto a César tinha levado ao Oriente o evangelho da força e o Oriente trouxe para o Ocidente um reflorescimento do poder dos antigos deuses junto com um clero profissional, cujo principal objetivo era assegurar uma garantia de imortalidade ao indivíduo.

Os romanos sentem a necessidade de uma religião espiritual, é neste período
que entram em contato com as religiões orientais. Os mistérios greco-orientais
deram um senso de espiritualidade superior, colocando o homem em contato direto
com a divindade e pensando a vida do além-túmulo.
[1]

Essa contribuição do Oriente deu-se através dos cultos de Mistério, cuja origem jaz num passado distante, mas que parece ter se baseado em uma forte crença entre a vida humana, com suas múltiplas aspirações, a morte e a natureza. Acredita-se que o primeiro culto de mistério emergiu na Trácia durante o século VI a.C. num culto baseado em Dionísio e os Titãs. Na frenética cerimônia desse culto, a carne crua de um touro era consumida pelos devotos, e, a partir daí, acreditavam estar ligados à divindade que haviam incorporado ou representado. Posteriormente os mestres órficos tentaram elaborar uma fundamentação racional para está fé, resultando no surgimento de inúmeras formas de culto associadas com diferentes formas de mitos, mas todas essas tendo o mesmo fim em vista.

Essas eram de caráter popular e não filosófico, entretanto, ofereciam ao
indivíduo comum uma oportunidade de escapar do destino fixado que o mantinha aprisionado.
[2]

II - Os Quatro Tipos Principais de Cultos nas Religiões de Mistério
2.1 Mistérios Eleusianos

Derivou seu nome de Eleusis, uma cidade situada a doze milhas de Atenas. Eles se basearam no mito de Démeter e sua filha Perséfone, que foi levada ao hades por Plutão, mas que recebeu a permissão de retornar à terra por um período a cada ano na primavera. O candidato à admissão no culto desta irmandade era preparado para manter total abstinência dentro de um quarto escuro. A seguir, lhe era oferecida uma bebida especialmente misturada, ficando exposto a uma luz brilhante na qual ele podia ver as imagens dos deuses, estando pronto a acreditar que agora estava apto tanto a se identificar com a divindade como capacitado a vencer a morte. Esse culto durou até 95 d.C., quando acabou desaparecendo na época do saque ao templo de Eleusis por Alarico.

2.2 Mistérios Frígios

Adoravam a deusa Cibele, que terminou tornando-se conhecida como Magna Mater, Grande Mãe. Ela era a deusa da fertilidade, Átis, seu amante, foi castrado a fim de que sua virilidade fosse dada à deusa. Mas, ele recuperou-se prodigiosamente e voltou à vida. Os sacerdotes dessa religião, pois, se castravam em honra dessa deusa. Os sacrifícios cruentos de touros era um rito importante nessa religião misteriosa. O sangue gotejava da plataforma onde os sacrifícios eram efetuados, pingando sobre os iniciados, que ficavam em baixo da plataforma. E esse sangue, segundo supunham, garantia a vida eterna aos iniciados.

2.3 Mitraismo

Mitra era uma antiga divindade ariana que veio da Índia e da Pérsia através da Ásia Menor, tendo sido calorosamente bem recebida, especialmente pela classe militar, no Ocidente. Ela foi identificada com o Sol Invictus, o sol que sempre venceu a escuridão renovando sua força a cada manhã. Esse culto incluía o Taurobolium, que havia sido apropriado dos Mistérios de Cibele. O processo de iniciação, para que alguém se tornasse membro pleno desse culto, era o mais elaborado dentre todas as religiões misteriosas. O candidato precisava passar por sete graus que simbolizavam como a alma, após a morte, deve atravessar sete céus, antes de atingir a glória eterna. Em cada um desses graus o candidato entrava mediante prática de abluções, refeições sagradas e vários ritos sacramentais. O mitraísmo era a única das religiões misteriosas a restringir ao sexo masculino o direito de se tornarem membros.

2.4 Mistérios de Ísis

Esse culto está ligado com a natureza sincrética dessas religiões, podemos afirma que a figura de Ísis foi identificada com a maioria das principais divindades femininas no Império Romano. Ísis e seu esposo Osíris tinham grande prestígio no Egito, por isso a deusa também teve sucesso em Roma. Ísis, na mitologia egípcia, era a esposa-irmã de Osíris, juntos reinavam e difundiam a paz. Certo dia, Osíris viaja para levar a paz pelo mundo, quando volta, é morto pelo irmão Seth, que o esconde. Ísis sai à procura do marido, quando o encontra, esconde seu corpo em um pântano. Seth estava caçando quando encontrou o corpo de Osíris, então, furioso, o parte em quatorze pedaços e espalha-os pelo Egito. Ísis, novamente, sai à procura e encontra treze pedaços, os quais une e forma a primeira múmia. Ísis também é fecundada pelo marido morto e nasce Hórus, que irá combater Seth. O resultado foi a divisão do Egito entre o Alto e o Baixo Egito, para Seth e Hórus. Por ter restituído a vida do marido morto, Ísis tem como função primordial curar os enfermos. A ressurreição de Osíris simboliza a renovação vegetal, assim, Ísis é também a deusa agrária e da fertilidade, assim como a mãe universal.

Os adoradores de Ísis em Roma imitavam a deusa, batendo no peito e gritando por Osíris, mas explodindo de júbilo quando o deus é reencontrado. O templo era a morada dos deuses, os sacerdotes tinham que ser puros, por isso raspavam a cabeça e suas funções eram: lavagem das estátuas, transporte da divindade em procissões, oferendas rituais de alimentos e bebidas, instalação da presença divina na estátua, etc. Assim, em Roma, os mistérios de Ísis eram prolongamentos das cerimônias egípcias.

III – A Relação entre as Religiões de Mistério e o Cristianismo

A leitura do material histórico que restou dessas religiões impressiona em certas semelhanças básicas com o cristianismo. Pode se perceber nessas religiões planos de redenção como no cristianismo; elas enfatizam a vontade e a responsabilidade humana, o uso da vontade para obedecer e executar os mandamentos da divindade; elas dão grande valor à fé religiosa nesta vida; elas falam na descida ao hades, na libertação do hades, e no vôo para a glória eterna; exceto no caso do mitraísmo, homens e mulheres podiam tornar-se membros, com um destino celestial idêntico, mesmo que no mundo os privilégios entre homens e mulheres diferissem.

3.1 A inserção do cristianismo em Roma

É evidente à luz dos textos neotestamentários bíblicos que, em seus primórdios mais antigos, a igreja romana teria sido, provalvemente, iniciada não (exceto indiretamente) por algum apóstolo, mas pela plebe composta de judeus e prosélitos que haviam testemunhado o evento de Pentecostes em Jerusalém[3] e haviam, mais tarde, regressado aos seus lares em Roma. É preciso enfatizar que esses “leigos” eram judeus ou, em alguns casos, tinham, em determinada época, se convertido a religião judaica. Por essa razão a comunicação epistolar do apóstolo Paulo aos romanos revela o caráter judaico que aquela igreja possuia.

Um outro fator de destaque era o carater informal que possuia as igrejas cristãs do primeiro e segundo século, eram inexistentes os edificios eclesiásticos no sentido em que os imaginamos hoje. Sobre isso afirma Hendriksen:

As famílias faziam os cultos em seus próprios lares. De tais cultos
participariam membros da família, provavelmente pai, mãe, filho, às vezes outros
parentes próximos e servos. Se a casa era bastante ampla para acomodar outros,
então eram convidados.
[4]

Estando incluido no contexto religioso e diante das semelhanças já mencionadas, alguns estudiosos estão divididos a respeito da influência que o cristianismo na sua nascente recebeu das religiões e cultos de mistérios.

3.2 A Teoria dos Empréstimos

Muitos estudiosos admitem que em algum grau houveram empréstimos das religiões de mistério para o cristianismo. Dentre esses, Bousset afirma que as lavagens cerimoniais dessas religiões de mistério eram precursoras do batismo cristão e que a refeição sagrada era precursora da Ceia do Senhor, além do que o conceito do “deus” que morre e ressuscita influenciou as doutrinas cristãs a respeito de Cristo.[5]

Paul Tillich afirma ainda que os deuses das religiões de mistério influenciaram bastante o culto e a teologia cristã.

Ao ser iniciada num determinado mistério, como mais tarde eram os cristãos
iniciados nas congregações poe estágios, a pessoa passava a participar no deus
mistério e em suas experiências. Em Romanos 6, Paulo descreve essas experiências em relação a Jesus em termos de participação na sua morte e ressurreição.
[6]

Todavia outros estudiosos admitem que é lógico supormos que o cristianismo, ao crescer no meio ambiente formado pelas religiões de mistério tenham frequentemente elaborado seus próprios sistemas contra o pano de fundo dos Mistérios e das formas de pensamento que eram comuns a ambos. A similaridade entre a terminologia dos antigos escritos cristãos e dos Mistérios evidenciam que houve um confronto real entre essas comunidades e um empréstimo apenas de termos. Wand chega mesmo a afirmar:

O Cristianismo derrotou os mistérios em seu próprio campo. Ele tinha a
vantagem de estar baseado não em um mito, mas numa pessoa histórica.
[7]

Ao admitir certas similaridades esses estudiosos não admitem que houve qualquer empréstimo substancial das Religiões de Mistério para o cristianismo. Champlin chega a afirmar que essas chegaram até a contribuir para a expansão do cristianismo.

... (1) O trabalho missionário foi facilitado: A Igreja cristã, ao avançar
para regiões onde predominava o paganismo, encontrou aderentes das religiões
misteriosas. Uma certa semelhança de maneira de pensar, quanto a certas áreas
importantes, naturalmente teriam exercido efeito na preparação do caminho para a passagem da nova fé [...] (2) A ênfase sobre a necessidade de disciplina e de
experiência religiosa: Embora, com frequência, aqueles sistemas religiosos
misteriosos abusassem dessa questão, foi uma ênfase positiva.
[8]

3.3 A Teoria da Originalidade

Padovani, de forma brilhante, descreve a relação do cristianismo com essas religiões afirmando que o problema do cristianismo não foi o de justificar-se como religião, com o seu conteúdo arcano e prodigioso, em que facilmente se podia crer. O problema era justificar-se como religião em face de outras muitas e variadas religiões e sistemas filosóficos-religiosos da época, que se apresentavam com fins idênticos e caracteres análogos aos do cristianismo.[9]

Nesse particular Pandovani representa uma mentalidade que não se preocupa em encontrar empréstimos na relação entre o cristianismo e as religiões de mistério, mas insere o cristianismo na multiplicidade dos cultos da época e que, se apresenta original e rejeita qualquer compromisso com os sistemas religiosos da época.

O cristianismo, cônscio da sua originalidade e intransigente como a verdade,
rejeita semelhante solução e qualquer compromisso com as doutrinas religiosas e
sistemas políticos da época.
[10]

3.4 Uma posição alternativa

Essa posição rejeita qualquer empréstimo que o cristianismo tenha feito de doutrinas, cerimônias ou códigos de ética das religiões de mistério em Roma. Todavia admite que o cristianismo não é uma religião puramente original. Dessa maneira admite que se houve algum empréstimo esse é oriundo do judaísmo.

Elementos como a Ceia cristã remonta a cerimônia da páscoa realizada pelos judeus, o rito do batismo era uma prática corriqueira dos essênios (seita judaica), como atesta os manuscritos do mar morto, bem como as cerimônios de purificação do judaísmo. A morte de Cristo é vista como a morte de um cordeiro, prática diária no templo em Jerusalém. A ressurreição era um evento do Antigo Testamento exclusivo de Javé.

Todavia o contato que o cristianismo teve fora dos círculos judaicos forçou-lhe a empregar termos inteligíveis e já usados naquele período, como por exemplo o “logos” grego sendo descrito como o período da pré-existência de Cristo. E referindo-se as religiões de mistério, o termo mysteriô não se encontra no Antigo Testamento, sendo portanto utilizado no Novo Testamento para, quase sempre, representar o projeto de redenção pregado por Jesus aos homens e mulheres.

As Religiões de Mistério assim como o cristianismo primitivo constituem fios do grande tapete que foi a sociedade romana. A investigação microcóspica desses fios somente nos fará discernir como mais propriedade a complexidade de Roma e o que deixou como legado, a despeito das descontinuidades e rupturas os vestígios ainda permeiam a sociedade ocidental.




[1] FANTACUSSI, Vanessa Auxiliadora. O asno de Ouro: uma análise do culto a deusa Ísis.
[2] WAND, J. W. C. Os Rivais do Cristianismo. In: História da Igreja Primitiva. São Paulo: Custom, 2004. pp.159-166.
[3] At.2.10 (BÍBLIA SAGRADA. Edição revista e corrigida. São Paulo: SBB, 1969. p.154.)
[4] HENDRIKSEN, William. Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p.36.
[5] CHAMPLIN, R. N.; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 4 ed. São Paulo: Candeias, 1997. Vol. 5. p.655.
[6] TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2004. p.35.
[7] WAND, J. W. C. op. cit. p.161.
[8] CAMPLIN, op. cit. p.656.
[9] PADOVANI, Umberto A. Filosofia da Religião: O problema religioso no pensamento ocidental. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1968. p.57.
[10] PADOVANI op. cit. p.58.

2 comentários:

Anônimo disse...

Boa tarde!!

Pastor, estou fazendo um trabalho sobre as Religioes do Imperio Romano.

Gostaria de saber se o sr teria algum material que fale sobre:
olocal de origem da religiao;
o mito fundante;
a forma de culto;
os templos mais importantes;
escritos, literatura produzida, etc

sobre as religioes:
afrodite
artemis
asclépio
eleusis
dionisio
oraculos sibilinos
sarapis e isis
cibele e atis
sabacio e men
religioes de misterio

Mto obrigada
desde já agradeco a atencao

a paz do senhor jesus

att

vivianestell@yahoo.com.br

celeste disse...

Olá Pastor gostei muito do assunto abordado. Na verdade é um assunto que pretendo discutir na minha monografia do curso teológico. Queria saber se o senhor teria como me informar bibliografias a respeito deste assunto, fora as que já encontrei no fim do seu post.
Deste já agradeço e parabéns pela pesquisa.
celeste.adm@gmail.com